Daniel
Galera é um nome que vem se consolidando no cenário da Literatura Brasileira.
Nascido em São Paulo, mas criado em Porto Alegre, o escritor-tradutor ingressou
na produção literária via Web, no fanzine Cardosoline e, também, em outros sites. Com
Daniel Pellizzari e Guilherme Pilla (ilustrador), encabeçou um projeto que
consistia em publicar, em impressão, os textos que escreviam. Assim nasceu a
Editora Livros do Mal, que lançava títulos de autores novos e independentes.
O
livro de Galera, Barba ensopada de sangue
(Companhia das Letras) ficou em terceiro lugar no Prêmio Jabuti e ganhou o
prêmio São Paulo de Literatura em 2013. Sobre o obtido reconhecimento de sua
mais recente publicação, em entrevista ao jornal ZH, em 30/11/2013, o escritor
disse:
“Nunca ganhei muitos
prêmios, na verdade. Até agora, a maior premiação havia sido o Machado de
Assis, da Biblioteca Nacional, pelo Cordilheira.
Depois tive dois terceiros lugares no Jabuti (em 2009 e 2013), o que é algo bem
relativo, não é como ganhar o prêmio, embora seja importante. Mas, quando estou
fazendo um livro, meu objetivo não é fazer com que ele seja premiável. Existem
preocupações mais importantes.”
Daniel
disse tudo. Em sua narrativa existem preocupações mais importantes, por isso
mesmo seu texto é tão denso e complexo, prendendo o leitor à sua ficção de alta
qualidade. O livro surpreende com suas
descrições minuciosas, com seu profundo trabalho de caracterização das
personagens, tanto física quanto psicológica e com sua trama longa e lenta
(longe de ser monótona), que contrasta com seus diálogos ágeis.
O
enredo é sobre um filho que perde o pai de maneira trágica e impactante, uma
espécie de “crônica de uma morte anunciada”. O pai chama o filho para
conversar, os dois falam sobre o passado, sobre o misterioso assassinato do avô
em Santa Catarina e, no fim do bate-papo, o homem diz ao seu menino que
desistiu de viver, que irá se matar. Finda a conversa, pedindo ao filho que,
após a sua morte, leve a cachorra Beta ao veterinário, para que se faça uma
eutanásia. O pai, por amar muito o animal, alega não ter coragem de tomar tal
atitude. Apenas sentia que sua Beta sofreria muito com seu desaparecimento. O
filho fica em choque, não consegue acreditar naquelas palavras que saem da boca
do homem . O pai fala:
“Tu pode deixar pra trás
um filho, um irmão, um pai, com certeza uma mulher, há circunstâncias em que
tudo isso é justificável, mas não tem o direito de deixar pra trás um cachorro
depois de cuidar dele por um certo tempo… Os cachorros abdicam para sempre de
parte do instinto pra viver com as pessoas e nunca mais podem recuperá-lo por
completo. Um cachorro fiel é um animal aleijado. É um pacto que não pode ser
desfeito por nós. O cachorro pode desfazê-lo, embora seja raro. Mas o homem não
tem esse direito.” (p. 15)
Barba
ensopada de sangue, ao contrário do que o título possa sugerir, é
um livro sobre a natureza, dramas pessoais, relações frágeis e amores
definitivos. A história fala, com delicadeza e pungência, da necessidade de “se
perder”, para tentar encontrar parte do que se é; para tentar se reconhecer;
fala de uma inevitável relação cíclica que se deixa de herança aos que virão…
(Fonte: homoliteratus)
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