segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

COLUNA PORTUGUÊS E POESIA

BARBA ENSOPADA DE SANGUE

Daniel Galera é um nome que vem se consolidando no cenário da Literatura Brasileira. Nascido em São Paulo, mas criado em Porto Alegre, o escritor-tradutor ingressou na produção literária via Web, no fanzine Cardosoline e, também, em outros sites. Com Daniel Pellizzari e Guilherme Pilla (ilustrador), encabeçou um projeto que consistia em publicar, em impressão, os textos que escreviam. Assim nasceu a Editora Livros do Mal, que lançava títulos de autores novos e independentes.

O livro de Galera, Barba ensopada de sangue (Companhia das Letras) ficou em terceiro lugar no Prêmio Jabuti e ganhou o prêmio São Paulo de Literatura em 2013. Sobre o obtido reconhecimento de sua mais recente publicação, em entrevista ao jornal ZH, em 30/11/2013, o escritor disse:

“Nunca ganhei muitos prêmios, na verdade. Até agora, a maior premiação havia sido o Machado de Assis, da Biblioteca Nacional, pelo Cordilheira. Depois tive dois terceiros lugares no Jabuti (em 2009 e 2013), o que é algo bem relativo, não é como ganhar o prêmio, embora seja importante. Mas, quando estou fazendo um livro, meu objetivo não é fazer com que ele seja premiável. Existem preocupações mais importantes.”

Daniel disse tudo. Em sua narrativa existem preocupações mais importantes, por isso mesmo seu texto é tão denso e complexo, prendendo o leitor à sua ficção de alta qualidade. O livro surpreende com suas descrições minuciosas, com seu profundo trabalho de caracterização das personagens, tanto física quanto psicológica e com sua trama longa e lenta (longe de ser monótona), que contrasta com seus diálogos ágeis.

O enredo é sobre um filho que perde o pai de maneira trágica e impactante, uma espécie de “crônica de uma morte anunciada”. O pai chama o filho para conversar, os dois falam sobre o passado, sobre o misterioso assassinato do avô em Santa Catarina e, no fim do bate-papo, o homem diz ao seu menino que desistiu de viver, que irá se matar. Finda a conversa, pedindo ao filho que, após a sua morte, leve a cachorra Beta ao veterinário, para que se faça uma eutanásia. O pai, por amar muito o animal, alega não ter coragem de tomar tal atitude. Apenas sentia que sua Beta sofreria muito com seu desaparecimento. O filho fica em choque, não consegue acreditar naquelas palavras que saem da boca do homem . O pai fala:

“Tu pode deixar pra trás um filho, um irmão, um pai, com certeza uma mulher, há circunstâncias em que tudo isso é justificável, mas não tem o direito de deixar pra trás um cachorro depois de cuidar dele por um certo tempo… Os cachorros abdicam para sempre de parte do instinto pra viver com as pessoas e nunca mais podem recuperá-lo por completo. Um cachorro fiel é um animal aleijado. É um pacto que não pode ser desfeito por nós. O cachorro pode desfazê-lo, embora seja raro. Mas o homem não tem esse direito.” (p. 15)

Barba ensopada de sangue, ao contrário do que o título possa sugerir, é um livro sobre a natureza, dramas pessoais, relações frágeis e amores definitivos. A história fala, com delicadeza e pungência, da necessidade de “se perder”, para tentar encontrar parte do que se é; para tentar se reconhecer; fala de uma inevitável relação cíclica que se deixa de herança aos que virão… (Fonte: homoliteratus)





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