A DEMORA
(Mia
Couto)
O amor nos condena:
demoras
mesmo quando chegas antes.
Porque não é no tempo que eu te espero.
Espero-te antes de haver vida
e és tu quem faz nascer os dias.
Quando chegas
já não sou senão saudade
e as flores
tombam-me dos braços
para dar cor ao chão em que te ergues.
Perdido o lugar
em que te aguardo,
só me resta água no lábio
para aplacar a tua sede.
Envelhecida a palavra,
tomo a lua por minha boca
e a noite, já sem voz
se vai despindo em ti.
O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.
MIA COUTO: Um expoente da literatura africana, Mia Couto nasceu na Beira,
em Moçambique, em 1955, e é biólogo de formação. Atualmente é o escritor
moçambicano mais traduzido no exterior, as suas obras foram publicadas em 24
países. Premiado internacionalmente, inclusive com o Prêmio Camões (2013) e com
o Neustadt Prize (2014), Mia Couto apresenta uma farta produção (o autor já
lançou mais de trinta livros entre prosa, poesia e literatura infantil). Seu
romance Terra sonâmbula é
considerado um dos dez melhores livros africanos do século XX.
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