segunda-feira, 8 de maio de 2023

COLUNA PORTUGUÊS E POESIA - ROGER TAVARES

 

ITAMAR VIEIRA JÚNIOR: Nascido em Salvador, em 1979, é Graduado e Mestre em Geografia pela Universidade Federal da Bahia. Na mesma instituição de ensino superior, concluiu também sua tese de doutorado, dessa vez na área de Estudos Étnicos e Africanos, com o nome de Trabalhar é tá na luta: vida, morada e movimento entre o povo Iuna (2017), pesquisa que se volta sobre a formação de comunidades quilombolas no interior do Nordeste brasileiro. Para além da literatura, atua como funcionário do INCRA - órgão federal voltado para a implantação da reforma agrária.

Estreia na literatura em 2012, com o livro de contos Dias, vencedor do XI Prêmio Projeto de Arte e Cultura (Bahia). Em 2017, lança o também premiado A oração do carrasco, finalista do Prêmio Jabuti do ano seguinte na categoria conto. Além disso, o livro conseguiu o segundo lugar no Prêmio Bunkyo de Literatura 2018 e foi vencedor do Prêmio Humberto de Campos da União Brasileira de Escritores (Seção Rio de Janeiro).

Já seu impactante romance Torto arado (2018) conquistou em Portugal o prestigioso Prêmio LeYa, concedido por unanimidade pelo modo como representa de forma sólida e realista o universo rural brasileiro. O enredo enfatiza trabalhadores sem-terra remanescentes do regime escravista, em especial as personagens femininas duplamente vítimas da violência que impera nos grotões mais afastados, realidade representada por meio de uma sensível e sofisticada escrita, como bem notaram os jurados do concurso em sua nota de justificativa:

O Prémio LeYa 2018 é atribuído ao romance “Torto Arado”, pela solidez da construção, o equilíbrio da narrativa e a forma como aborda o universo rural do Brasil, colocando ênfase nas figuras femininas, na sua liberdade e na violência exercida sobre o corpo num contexto dominado pela sociedade patriarcal. Sendo um romance que parte de uma realidade concreta, em que situações de opressão quer social quer do homem em relação à mulher, a narrativa encontra um plano alegórico, sem entrar num estilo barroco, que ganha contornos universais. Destaca-se a qualidade literária de uma escrita em que se reconhece plenamente o escritor. Todos estes motivos justificam a atribuição por unanimidade deste prémio.

Situando a história em uma região remota e imaginária do nordeste brasileiro, o autor abrange problemáticas que envolvem proporções maiores ligadas tanto ao modo de funcionamento histórico e social do país quanto à complexa e intrincada rede de sentimentos e emoções intrínsecas ao ser humano. Em concomitância, temos um romance que fornece elementos para debate sobre as desigualdades e violências entre cidade e campo, as desigualdades de gênero, as formas de resistência das religiões de matriz africana e indígena, as permanências e continuidades da escravidão simbolizadas na relação de mando inviolável entre patrão/dono e trabalhador/agregado, assim como do tríplice espólio sobre o trabalhador: sua mão de obra, seu produto final e seu tempo.

PUBLICAÇÕES: Dias. Salvador: Caramurê Publicações, 2012. (contos). A oração do carrasco. Itabuna-BA: Mondrongo, 2017. (contos). Torto arado. Lisboa: LeYa, 2018; São Paulo: Todavia, 2019. (romance). Doramar ou a odisseia: histórias. São Paulo: Todavia, 2021. (contos). Salvar o fogo. São Paulo: Todavia, 2023. (romance). (Fonte: Faculdade de Letra da UFMG)

 

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