Crônica do Novo Papa
Por um cronista que ainda acredita em fumaça
Na tarde de um mundo hiperconectado, onde as crianças não mais apontam para o céu mas para as telas, onde as orações muitas vezes são sussurradas aos algoritmos e os avatares já assumem traços humanos, a humanidade parou. Não por um bug. Não por um colapso nos servidores globais. Mas por um sinal de fumaça.
Sim, fumaça. Na era da inteligência artificial, do metaverso, das moedas virtuais e da fé líquida, o velho ritual do Conclave, com seus séculos de tradição, venceu o tempo — mais uma vez. Quando o branco subiu sobre o céu do Vaticano, milhões de olhos largaram suas bolhas digitais e voltaram-se para o céu real, feito de nuvens verdadeiras e história sólida.
Na Capela Sistina, os homens de batina ainda votam em papel. Ainda juram em latim. Ainda selam janelas. E ainda escolhem, entre eles, quem vai guiar mais de um bilhão de almas. Fora dali, o mundo transcreve suas confissões em caixas de comentário e consome fé em pílulas de vídeo de 15 segundos. Mas ali, não. Ali, o tempo não passou. Ou talvez tenha passado e voltado.
Foi eleito o novo Papa.
Um americano. Um agostiniano. Um homem de voz serena e olhar afiado. Um Leão, ainda que leve. Leão XIV.
O primeiro pontífice da era da IA generativa, dos carros sem motorista, dos padres tiktokers e dos sermões transcritos em tempo real por aplicativos. A cadeira de Pedro agora é ocupada por alguém que sabe que evangelizar também passa por entender o algoritmo. Mas que, ao mesmo tempo, não negocia com o essencial: a fé que não precisa de login.
Há algo bonito — e até paradoxal — nisso tudo. A Igreja, com sua liturgia centenária, entregando uma das decisões mais antigas do planeta com um método ancestral: o voto secreto, o isolamento, o silêncio. E, no fim, a fumaça.
Não foi um breaking news. Foi uma epifania.
Não foi uma atualização. Foi uma escolha.
Não foi trending topic. Foi história.
Enquanto o mundo disputa atenção com notificações, o Conclave lembrou ao planeta que algumas mensagens ainda vêm do alto. Que não é preciso toque na tela para mudar tudo — basta um sopro de tradição e a brancura de uma fumaça que insiste em dizer: habemus papam.
Por: Igor Garcia

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