Coluna Português e Poesia - Roger Tavares
O petróleo, sem consumo, não vale nada, não é mais ouro negro como sempre disseram. O ouro hoje é em gel, e transparente. E só serve pra desinfetar. Shoppings fechados, lojas desertas. Para que comprar, se ninguém vai ver a bota nova comprada na loja cara logo no lançamento? Carros que não saem das garagens. Viagens desmarcadas. A Disney perdeu o encanto e o Donald, dessa vez o Trump, pede para que os americanos fiquem em casa. Em todas as línguas, a palavra mais falada é a mesma: "casa", que ganha um novo significado: além de morada, vira "abrigo". A muralha da China não impediu que o vírus se espalhasse.
Deixamos todo o trabalho em cima das mesas e, de um dia para o outro, tudo parou. Tenho a sensação de que não me despedi de ninguém. Fico imaginando que eu não posso perder ninguém, nem ir embora desse mundo sem me despedir. Será que abracei o suficiente? Será que disse a todos o quanto eu os amo. Não sei. Essa Guerra me deixou sem chão. Verdades tão óbvias apareceram e quebraram paradigmas. Precisou que o mundo parasse e o vírus ameaçasse nossa sobrevivência para que os pais percebessem que educação se faz em casa e que escolas são centros de socialização. Que ensinar não é fácil e que professores são muito mais heróis do que aqueles que o cinema mostra. Que os mitos estão nos hospitais, de máscaras e sem condições de trabalho e não no Planalto, onde a “idiotização” das pessoas toma forma humana e sem escrúpulos.
Se você aprendeu com a sabedoria dos mais velhos, sorte a sua: o mundo, depois dessa tsumani, será mais jovem, com menos rugas e menos sábio. Ou talvez a sabedoria apareça nesse tempo, desde que ele sirva para entendermos que viagens foram canceladas porque a grande viagem que deve ser feita é pra dentro de nós mesmos. Para que você entenda que o importante não são os custos, mas os valores.
Que essa guerra sirva para que você reveja seus conceitos e entenda que rico é o trabalhador: sem ele não existe riqueza. Que, sem o homem, a natureza é mais feliz e o céu mais azul. Que amigos usam a tecnologia para se fazer perto, e que não existe distância para aqueles que se amam. Que vencer uma guerra no sofá é uma benção e está em suas mãos. Sua casa é sua trincheira e, na terceira guerra mundial, a granada mais perigosa é água e sabão. E, quando passar, olhe pra essa quarentena e veja que ela foi apenas o tempo de incubação, que você precisou para renascer."


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