segunda-feira, 22 de junho de 2020

Coluna Português e Poesia

O Amor Simples
(Lya Luft)

Alguém vai sorrir e dar de ombros ao ler este título: amor simples? Bah.
Se tudo na vida é complicado, o amor tende a ser isso, multiplicado e múltiplas vezes.
Ou não? Depende do amor, do tempo, do casal, das circunstâncias. Hoje em dia, casais e
famílias encerrados na pandemia , muitos amores se renovam, outros se veem estilhaçados, o
anel que me deste se quebrou.
Não sei se tenho muitas amizades firmes e fortes hoje em dia. Algumas se foram
porque a Senhora Morte as levou, e de várias nunca me recuperei. Outras, uma, duas,
simplesmente sumiram sem um adeus e, depois de algum tempo de perplexidade, desisti.
Muitas ficaram e outras surgiram, tenho a sorte de ter aquelas amizades da vida inteira, e
algumas novas, que são sempre um refrigério, renovação e aprendizado.
Nesta fase de reclusão, que vai me cansando e enlouquecendo muita gente, nunca
tanto valorizei a internet, o Whats , o Instagram , o Face , pontos de encontro, troca de
recados, afetos, debates, risos e também tristezas.
Quando pequena, eu tinha poucas amigas reais: não se usava muito isso de dormir ou
comer na casa dos outros, não havia praticamente vizinhas da minha idade. Mas eu tinha
amigos imaginários, de que já falei: uma família inteira. Familinha, diminutos, vestidos de
verde, chapeuzinho pontudo. Eu os sentava no peitoril da janela e conversava com eles.
Imaginação infantil, ou de verdade gnomos benfazejos? Criança enxerga o que adultos há
muito deixaram de ver.
Na escola comecei a entender amizade e coleguismo. Afinal já podia visitar amigas e
elas vinham à minha casa. Sempre havia as mais ligadas em mim e as mais ligadas entre si:
eu, em geral a mais novinha e maior, mais pateta para muitas coisas, ficava um pouco de
fora. Mas adorava dançar de mãos dadas no pátio da escola, cantiga de roda, sobretudo – ao
entardecer nos dias de calor – na calçada de casa. Outros tempos. Quando, já escurecendo,
a criançada ainda corria ou girava na rua, eu tinha de entrar: banho, comer e cama.
Surgiram daí minhas revoluções bobas e prematuras: “Por que tenho de entrar se as outras
podem continuar brincando? Por que tenho de comer e logo dormir? Por que, por que, por
quê?”.
Por isso e outros motivos, sempre desejei crescer. Ser jovem, adulta, entrar na
maturidade, envelhecer: cada vez ficaria mais independente, mais livre. “Ninguém é livre”,
me diziam. É, sim, eu teimava. Livre para ler ou caminhar quando quisesse, para dormir
quando sentisse vontade, para comer algo além de purê de batata, peito de frango e canja.
Para ler quando e quanto quisesse, e casar, e ter filhos, coisa que eu mais queria, e, de novo,
tempo para sonhar e ler.
E para as grandes, verdadeiras amizades.
Amigo, esse que não cobra, não trai, não tem inveja nem ciúme, nem te deixa na mão
– e, mesmo quando não te entende, te curte –, como eu espero ser para os meus, é esse
amor simples de que falo no título.
E nos salva.

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