segunda-feira, 20 de março de 2023

COLUNA PORTUGUÊS E POESIA - Roger Tavares


OUTONO

Élida Gontijo

 

Começa o outono hoje, em meu coração ele já tinha chegado, uma pequena queda da temperatura. Ando perdendo minhas folhas, muitas vezes sinto um frio na alma, o medo do inverno ser tenebroso como a pandemia. Acho este período triste, solitário, as folhas voam ao vento, amareladas caem ao chão. Procuram abrigo nos pés das árvores ou mesmo longe delas.

Não podemos pular estações , a vida segue um ciclo e como parte dele vamos nos transformando. Diante deste clima tão triste ali fora, aqui na minha esquina, na cidade, no mundo, queria ser como o urso que hiberna e só desperta com a luz e beleza da primavera. Muitas vezes ao despertar pela manhã ou mesmo nas madrugadas que meu amigo sono resolve passear bem longe, penso que lá fora deve estar diferente, os jornais não falarão de morte, vacinas etc. Pena que ainda é outono, tempo de refletir , de trocar as folhas , deixar ir embora todo excesso, todo apego, aquilo que pesa , que angustia. 

Vislumbro a primavera carregadinha de flores, toques, abraços delicados como as hortênsias, a luminosidade dos girassóis buscando sempre a luz, a esperança de dias melhores. No meu outonar, muitas vezes choro a minha dor e a dor do outro que perdeu emprego, um ente querido, o controle da vida. Tento aprofundar minhas raízes e estender minhas galhas até alguém que precisa da minha sombra para reequilibrar, florir fora do tempo, perfumar corações feridos. Vou vivendo um dia após o outro e aprendendo na dor, não tem como controlar o tempo, as pessoas que dizem não à máscara, aos cuidados, ao respeito com o outro.

É outono sim, não pularei etapa, seguirei lentamente, apesar do turbilhão que ronda minha cabeça e o mundo todo. Outonarei, invernarei, mas com a certeza que a minha coragem e esperança arrebentarão a terra, brotarão na primavera flores da alegria, da resposta , da cura, do afago, do amor. 

 

 

 

 

Me deixem ficar aqui apenas
sozinha no meu quarto
a contemplar as folhas secas do outono
que se amontoam pelo chão
levadas e trazidas pelo vento...
Deixem-me ouvir o som das nuvens
e admirar suas formas negras...
Deixem-me suspirar pela vida
que reflete no meu ser
assim, penso nas horas
que não posso mais perder
e nas que eu perdi...

(Suzanne Leal)

 

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