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Vinícius Lacerda Pereira
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Se reabrir, ainda que com isolamento somente de grupos de
risco, pode haver uma contaminação mais ampla, impactando no PIB, empregos etc.
A Itália experimentou esta convivência de vírus com suposta normalidade econômica
e se aprofundou num caos sanitário. Esperar pode apenas realizar a profecia da
depressão econômica (e psicossocial). A pergunta de fundo é se é possível
chegar a um funcionamento correto da economia como expressão da vida humana, em
vez de fazer da vida uma questão econômica. E não é uma visão socialista. Esta
confusão é mera resultante de termos criado um mundo que não conseguimos mais
compreender.
Não adianta muito julgar o presidente Jair Bolsonaro. Ele é
apenas um indivíduo da espécie estimulado por seu instinto e inconsciente a
encontrar um padrão seguro para conter a ameaça biológica, só depois isso se
mistura ao complexo ideológico da política, da economia e outros, que é quando
o chefe do Poder Executivo atua para reduzir danos em meio à tendência
majoritária de recomendações isolacionistas, a fim de colher culpados ali na
frente, diante do desastre que parece inevitável aos negócios e às condições
sociais. Os ruídos sobre derrubá-lo são, do mesmo modo, respostas dos grupos
que se sentem ameaçados. No entanto, os que escolhem a autoproteção dependem
dos que são estimulados a seguir um comportamento coronacético como Bolsonaro
professa.
Seja o que for o coronavírus – guerra biológica, efeito da
depredação da Natureza – ele ativou o instinto de sobrevivência dos homo
sapiens. O cérebro percebe que as respostas disponíveis vão deixando de servir
e as procura fora do ego individual – é inevitável que o “programa” da
cooperação cresça e se emparelhe com o da competição. Você acha que raciocina
politicamente, socialmente e economicamente, mas, em primeira instância, o
instinto coletivo é quem age, riscando uma linha entre quem tende mais à
cooperação e quem tende mais à competição, colocando-os para alcançar um
equilíbrio que seja compreendido como caminho seguro para progredir.
Mas como? No terreno econômico, desde sempre nosso problema
foi a resposta autoafirmativa do ego ansioso, inseguro e deprimido diante das
marcas da existência: a impermanência, a insubstancialidade. Tal reação foi a
parteira do Poder, por meio da violência. Escravismo, Feudalismo, Capitalismo,
Comunismo foram nomes diferentes para sofrimento com ciclos de apogeu e queda,
como tudo que há, após fases de locupletação com exploração. Aliás, não se
preocupe com as elocubrações sobre tramas que devolveriam corruptos ao poder
aproveitando a cena. Corruptos existem na oposição, no muro e no governo desde
sempre, mudam ciclos, fazem-se escolhas eleitorais, mas tudo sobe e desce. Há
corruptos que vão morrer de coronavírus, outros não; uns vão cair, outros
crescer; mas aqui, na vida real do nosso dia a dia, o que vale é não dar de
barato que milhares de vidas podem ser perdidas para que o tipo de economia que
nos legou a Covid-19 sobreviva. Por isso, apesar de ser só um apelo desesperado
à ancestralidade, a ideia de que é melhor sacrificar os mais velhos pelo futuro
dos mais novos é completamente enviesada: os que morreram e morrerão, a
despeito da idade e comorbidades, devem ser honrados porque nos deram tempo e
experiência para prosseguir em meio a este Walking Dead.
O que esta crise tem que nos ensinar nada tem a ver com
teorias econômicas. Mas aqui é que é preciso demonstrar a capacidade de uma
espécie que é a que mais rapidamente transmite cultura, porque evoluiu para a
linguagem. A “consciência que fala” pode expressar meros instintos e emoções
impulsivos; detectar a oportunidade de grupos humanos se imporem sobre outros,
demarcando o território de quem seria mais ou menos apto a sobreviver, como os
que acham que é a hora desta ou daquela doutrina social; ou, considero melhor,
nos fazer perceber que é uma crise sobre generosidade, altruísmo, desapego,
atenção plena, não-violência a todos os seres e não intoxicar a mente com a
poluição que permeamos no espaço, no tempo e no som. Ao invés de fantasias
místicas e “ecochatas”, essa assertiva só visa salientar a demonstração cabal
da lei de causa e efeito, famosa lei do carma. Se da pandemia concluirmos
nacionalismo, globalismo, militarismo, estado-vigilante, keynesianismo x
austeridade, vamos criar causas para, no máximo, adiar o apocalipse.
A política não é a economia concentrada, é a relação de
poder que estabelecemos com tudo e com todos, onde se inclui as relações
econômicas. Por isso, em vez de hegemonia, o despertar; do liderar, o servir.
OK, mas o que fazer de concreto? Não desistir dos coronacéticos e manter a
postura cooperativa e autoprotetiva à luz de fontes confiáveis e diversas sobre
as recomendações que preservam ao máximo a vida. Gostem ou não autoridades,
executivos, sacerdotes, analistas, achólogos e políticos. Como disse Morpheus a
Neo quando se desplugou da Matrix, calma, as respostas virão.
Fonte: escrito por LEOPOLDO VIEIRA, Paranaense, 36 anos, é
jornalista, analista político, especialista em Administração Pública e
chefe-executivo da IdealPolitik, agência de análise e assessoria.


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