quarta-feira, 19 de maio de 2021

Coluna Português e Poesia

Torto arado Revela o drama do interior do país

Torto Arado (Editora Todavia), do baiano Itamar Vieira Júnior, e vencedor do Prêmio LeYa (2018), percorre a dramática realidade vivenciada em muitos rincões do nordeste brasileiro, como a seca, a violência contra as mulheres, as práticas escravocratas ainda presentes nas relações laborais e outros tipos de opressão no campo. Uma obra construída meticulosamente com densidade e tensão narrativas, numa linguagem de inflexão reflexiva, que mapeia as nuances e signos de um país que, paradoxalmente, ainda oscila entre o arcaísmo e a modernidade.

Publicado em Portugal e saudado com efusivo reconhecimento pela mídia e crítica, Torto Arado possibilitou ao autor visitar o país para uma série de eventos e compromissos literários. O livro chegou ao leitor brasileiro num momento em que o Brasil voltava a sofrer os abalos de um onda conservadora, com seus discursos de ódio e racismo, quando os avanços e marcos civilizatórios das políticas sociais e de proteção das minorias, conquistados a duras penas nas últimas décadas após a redemocratização, vêm sofrendo duro ataque e ameaças de revogação.

Contrastantes

Torto Arado, obra instigante que atualiza nossas demandas por sanar os fossos aviltantes que se agudizam, separam e agridem, é narrada sob a perspectiva feminina, conduzida pelas irmãs Belonísia e Bibiana, personalidades contrastantes em seu modo de viver e reagir, mas igualmente fortes no enfrentamento de seus (des)caminhos.

Por meio delas, deslinda-se toda uma mitologia ligada aos valores de um Brasil que ainda sofre os refluxos dos tempos coloniais. Nascidas no seio de uma família de trabalhadores rurais no sertão baiano, Belonísia e Bibiana têm ascendência escrava e vivem sob o influxo de um quotidiano ainda estigmatizante mesmo depois de quase dois séculos da abolição. É o sentido da subserviência que nunca se desvinculou do imaginário de uma gente condenada ao atraso, a partilhar sempre na escassez as migalhas de um sistema que os aparta e aliena.

O gatilho da história é detonado a partir da descoberta de uma mala albergada sob a cama da avó e o contato com o mistério que ela esconde será um marco divisor em suas vidas. Um pequeno acidente (que deixará emudecida para sempre uma das irmãs) será determinante nos atalhos que bifurcarão seus caminhos e seus modos de enfrentar as vicissitudes comuns, a que muitos estão atados desde sempre na fazenda.

Atmosfera de aridez

No cerne desse belo romance, está a metáfora de um país que nunca conseguiu resolver seus passivos sociais e históricos e continua a repetir os mesmos erros que o deslocam na contramão do avanço dos povos e nações. É um livro sobre um destino nacional que parece nunca ser revogado, onde a pobreza, a concentração de renda, o predomínio do baronato e do monopólio da força de trabalho e dos latifúndios ainda persistem intocáveis por conta da força de suas elites, cada vez mais impermeáveis às mudanças, à mobilidade social e à alteridade, manipulando, com suas algemas psicológicas, o corpo e a consciência de muita gente.

 (Ronaldo Cagiano para o Correio Braziliense)



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